quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?"*



J,

tenho andado com um medo soterrado no coração. a senhora está com um tumor no cérebro, escuto dizer um homem de branco, entre as paredes de um corredor asséptico. enquanto sinto dores verticais atravessando um grande vazio no crânio, ouço uma gente tediosa falando esquizofrênicamente, no restaurante de frutos do mar. nada me interessa. e a mulher não para de falar, meu deus, não para. solto uma risada escandalosa. na mesa de frutos do mar. e no corredor asséptico. é tão triste que nenhum dia possa nascer sem lembranças, como uma profunda ressaca, sem náuseas. branca. talvez a alternância entre longos silêncios e o escândalo de uma risada aguda não seja muito amável, eu penso. no entanto, o tempo tem me parecido o sono de um grande molusco fixado nas minhas gengivas. a palavra quase não dança. um longo ruído de tv. o ruído que escuto quando ouço as palavras tumor-no-cérebro.


com saudades,


A.





*Pneumotorax; Manuel Bandeira

segunda-feira, 7 de maio de 2012

eu receberia as piores notícias

"Nenhum café consegue acordar você nenhum café consegue acordar você nenhum café.
Nenhuma revolução consegue captar sua atenção." Elizabeth Bishop

só hoje
não quero fazer registros
da minha presença no mundo

não haverá notícias sobre o café
derrubado sobre vestido
sobre o ódio sobre o trânsito
sobre os insetos sobre as doenças fatais
que me ocorrem sempre ao meio-dia
nenhuma timeline, nenhum novo status
nenhum plantão especial
nenhuma mensagem on your wall
nenhuma interrupção no jornal nacional

de tudo,
aço e doçura
só restará como registro
uma espessa ilha

fincada nos olhos
de um  morcego
que assombra
a garota do outdoor


quarta-feira, 25 de abril de 2012

entende?

sim sim, ainda há amor querida
só perdeu o sentido
mudamos, entende?
não não, não como os iphones
não se trata de versões esquizofrênicas

do mesmo

atualizações

não não querida

você sabe que ando pensando em me mudar para um sítio?

linguagem
morte
extrato de própolis
mudamos, entende?

um golpe de ar
um salto no escuro
o tempo
um câncer no fígado





sábado, 14 de abril de 2012

mapa cotidiano

aprenderei a suportar com elegância
a sucessão de contratos estúpidos
que fechei com a vida
dois chás e conta
as feras
restarão como cáries dentárias
dormindo lentas enquanto beijo
com depravação arqueológica
a garganta do destino

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

encarnação n°1

"They all did decide to show you the dead angels that they used to hide" Bob Dylan- Sad Eyed Lady Of The Lowlands

você é minha fotografia vestida cigana
no carnaval de 1995
você é o bolero que meu pai escutava aos domingos
você é a vez que cortei o joelho e sangrou muito


você é a primeira palavra em inglês
o doce que vovó fazia aos sábados


você é sonho com o jacaré na varanda
a insônia adquirida aos 17 anos
a vez que não aprendi


a andar de bicicleta


o cadáver do cachorro chamado bruce enterrado no jardim
o primeiro beijo de língua

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

das pequenas catástrofes


"as mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios" Ana C.

tenho saudade dor de dente

um livro da simone de beauvoir por oito reais

ei um é oito dois é doze

eu tenho medo que o mundo acabe

em dois mil e doze

morrer engolida pela onda gigante

esmagada pelo meteoro

da morte-inter-estrelar

ou acabar esquecida pela arca

de um noé-pós-moderno

ser um animal sem par

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

matéria é mentira

aos 4 anos me perdi no shopping center
de uma cidade estrangeira
mamãe disse que eu fui ver a partida de um grande trem de  brinquedo
no parque de diversões

essa ideia ninguém me tira 
perdi meu destino
num trem de brinquedo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

micróbios e aquários


coração é
palavra de cinema americano
é mote de samba canção
desenho de criança
soneto de aniversário

prefiro pensar meu coração,
aquele de que falam os romances
as novelas os médicos plantonistas
e os pacientes na sala de espera


ora um micróbio


ora um aquário

que eu
triste voyeur
observo como adereço
na sala de estar






quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

souvenir


pardon si je me suis souvien
si mes yeux s’ont perdu dans le grand
nuit du passé
tu as comme la mort
que marche en secret dans la vie
la mort que flotte dans le premier
air du jour
le souvenir c'est
une mer noir
emprisonné
dans mes veines

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

doença

o problema sempre foi
o ascendente em câncer.
a velha fotografia já não
diz quase
nada.
os poemas todos enterrados
numa vala de uma rua qualquer
da minha Paris imaginária
(é que eu sempre precisei
da carnificina do fim)
urubus
fantasiar quase
tudo
desculpe, meu bem
a tristeza sempre chega às seis
como uma ave migratória
peixes: esteja atenta a qualquer tendência à melancolia
de você guardei
esse astral;
um olho e um anjo
noturno.
o problema sempre foi
a ascendente em câncer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

lost in translation

para janis e sylvia

perdoa a escuridão, minha Mãe
me deita em teu colo

há uma garota do outro lado da rua
há uma garota na África
a boca partida de fome
e solidão
há uma garota no jardim
que foge das borboletas
e vagalumes

perdoa a escuridão, minha Mãe
me deita em teu colo

me guarda das outras
                                                                       
                                                 forgive the darkness


forgive the darkness, sweet mother
lie down my head on your lap

there is a girl across the street
there is a girl in África
a broken mouth
of hungry and lonliness
there is a girl in the garden
she is running from de butterflys
and lightning bugs


forgive the darkness, sweet mother
lie down my head on your lap


save me from the others
















quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Para Adélia Prado ou Poema onírico da aprendizagem II

e num susto de virgem
bendito orgasmo
dos noturnos imaginados
adélia me aparece
à janela
no limiar
da madrugada
"erótico é a alma"*

*in: Disritmia; Adélia Prado






Para Hilda Hilst ou Poema onírico da aprendizagem
















quem dera eu
nos sonhos um dia
fizesse amor com hilda
beber de teu sexo
o sumo da poesia
porque só no amor
eu aprendo a ser
poeta

hilda, amiga
de véu e aroma
na noite mais escura
e triste
vela meu sono

me acorda do sono, hilda
me deixa fazer amor contigo
me ensina
a ser poeta

*pintura O Pesadelo de Henry Fuseli

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Genealogia


o amor é
dessas coisas
que me invade
como gente
à terra ampla e vazia
e me toma
inteira de uma
coragem muito escura

a coragem, querido
é uma liberdade esquisita
imensa asa
desprovida de rota
água desembestada
sem cais
pedaço de terra
que não pode ser
tomado de herança

de repente,
como um filho que deixa a casa
a coragem, nascida do amor
já não é possível
como inviável é
a maternidade sem prole

porque o amor só é possível
quando tomado de herança
um piano inútil e intransferível
a ocupar a sala

e desterrados de casa
só resta essa liberdade,
esquisita
e só



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Conto da noiva desaparecida ou a Exegese do amor



















colocou o vestido de noiva
sozinha no quarto
viu o dia ficar azul
e a louça do café se encher
de formiga ao lado da cama
como nos funerais

colocou o vestido de noiva
e saiu entre os pedestres
desejou que todos fossem
                                         
                                          ratos

e em grande cortejo
a multidão dos bichos
carcomesse o vestido
enquanto fosse possível seguir
caminhando
como caminham os peixes
amputados
com sono dos peixes
                         
                           os olhos abertos
                           e imóveis

feito doce boiando esmagado
em vidro de conserva

(assim tinha visto na tv a receita do esquecimento)

e de repente
depois do baile
pudesse se ver nua
vestido desaparecido
no estômago dos ratos

despertada do grande sono
seria a amante de todos os ratos
fruto proibido
maior amor do mundo

repousaria como as formigas nos funerais

vida caminhando sobre a morte

1. exegese do amor; s.f. o amor é uma vigília


*Pintura de Edvard Munch

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poema para a namorada morta ou ficções da partida


compramos o chá. três minutos de infusão. um bom filme francês na tv, por acaso.

Teu corpo, por acaso, foi atropelado na avenida Voluntários da Pátria
O sangue não espanta
Só o desmaio dos cílios muitos longos
Mergulhados na figura de teu rosto
Líquido

tua carta de amor teve a letra a molhada de água com sabão em pó porque li muitas vezes enquanto punha a camisa de listras de que você gostava na máquina de lavar

O amor eterno
É uma paisagem
Teu corpo
Atropelado
Na avenida Voluntários da Pátria

na noite de sábado tive um pesadelo e te acordei no meio da noite pedi que me fizesse biscoitos creamcraker com mel você usava camisola de seda azul e uma camisa IloveLondon

As estrelas que desciam do céu sobre avenida Voluntários da Pátria
Eram teu corpo desdobrado delírio
Tuas tripas coração
O soneto de sete cabeças

te enviei um cartão postal com a fotografia do rio sena na primavera enquanto você estava em minas e eu no rio com saudade do teu cheiro de malbec café e desespero. guardei a crônica do jornal de domingo.

Tuas pernas amputadas na avenida Voluntários da Pátria
Tuas pernas o abraço nas minhas costelas
A eternidade

você voltou de viagem e fomos ao teatro você me repetiu que detestava Nelson Rodrigues mas fomos ao teatro na saída do restaurante você derrubou vinho no próprio vestido e me disse que detestava minha falta de barba e meu emprego de causas perdidas

Perdi minha alma
No teu corpo atropelado na avenida Voluntários da Pátria
Fiz mapa teus órgãos atropelados
Em busca do tempo perdido

na despedida você quebrou as xícaras de porcelana chinesa da tua avó me disse que era tarde demais para fazer a partilha dos discos só levou o Neruda que você me tomou e a mala de camisolas azuis e camisas IloveLondon

O brilho verde do semáforo na avenida Voluntários na Pátria
Iluminou tuas tripas coração
A eternidade asfaltada e úmida
Ave Maria Santa Mãe de Deus

(o sinal deu a partida
mais uma
leva
de automóveis
ultrapassava
o cão morto na avenida Voluntários da Pátria

*Pintura de Edvard Munch(Woman in three stages)









quarta-feira, 9 de novembro de 2011

quintessência

o cheiro da rua nos meus lençóis
o cheiro dos poemas esquecidos
o cheiro de mofo e menta e cinema sem lugar marcado
do primeiro namorado
o cheiro do homem estranho no museu
o cheiro do que arde do que dorme
o cheiro do quarto de empregadas
o cheiro da avó morta
o cheiro insuportável dos dezembros
o cheiro dos buracos
o cheiro dos teus ascos
o cheiro do que falta
o cheiro do que nada
o cheiro do que tudo
o perfume do teu cabelo em sete de maio
são paulo, outono de dois-mil-e-oito



terça-feira, 1 de novembro de 2011

linguagem

tua língua
é um dialeto
exótico
que decifro
tua língua
é o idioma da minha
terra natal
que não decifro
dupla,
abro o escuro
te ocupo
e te procuro

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

carta postal

Paris, outono de 1973, te escrevo de um café com mesas ao ar livre numa rua muito arborizada no Humaitá escrevo um cartão postal comprado em livraria com a paisagem de um lugar onde nunca estive Paris, outono de 1973 porque hoje é primavera no Rio de Janeiro em um ano muito distante de 1973 queria amar em outro tempo te escrevo notes for a poem saudade continente xícaras de porcelana porque gostaria de amar em outro idioma não, não em inglês em um idioma desconhecido mas ainda não aprendi as letras do desconhecido penso nos versos de Sophia de Mello Breyner terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. choveu muito hoje e sinto falta dos seus olhos. A.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

casa grande e senzala

os seios debruçados
sobre tua solidão
são relicários de perdas
antigos
flácidos
vulgares
é a parte de mim
que te procura
nos lugares
o contorno
exato
da tua falta
a parte
que exausta
da procura,
fixada,
vigia
e aflita
nas águas
de letargia,
parte
e partida
caminha

parte amputada
e amputada

é inteira
como o corpo
propriamente dito
de uma fêmea
e nos espelhos
multiplicados
vejo a mulher
que no tórax
à céu aberto
carrega
outra mulher,
são criaturas
dúbias
dirão eles
sem saber
que vislumbram
a própria imagem
transmutada
extraviada
num órgão-corpo
são criaturas dúbias,
dirão eles
senhora
que carrega
presa no tórax
a criada travestida

domingo, 23 de outubro de 2011

marina

um estado bruto de poema
me pesa nas mandíbulas
nessa hora do dia
em que sofro
uma espécie de falta.
de palavras
e noto
os sapatos
excessivamente sujos e velhos
que só agora
deixam de me sangrar
o calcanhar
o poema
me pesando
a mandíbula
me abandono
à paixão idiossincrática
de olhar barcos a vela
na marina de botafogo.
todos tão brancos e verticais
nos azuis demasiado azuis
do rio de janeiro
em primavera
me demoro
naquela coleção de destinos
os barcos
são meus cúmplices
frágil baú de guardados
à céu aberto
descanso
de minhas
distâncias
e naufrágios

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

e nada mais

chocolate amargo, meu bem
hollywood
a tristeza é um manequim
morto na paisagem
açúcar cansaço
de não-viagem
hollywood
lágrima de estrela de cinema
meu corpo a céu aberto
teu cheiro como um drops no escuro
esse líquido
as bolhas de refrigerante
a memória
boia nos instantes
o aberto-escuro
a profusão de imagens
nós em trêsd
denso-vazio
denso-vazio
denso-vazio

sábado, 8 de outubro de 2011

navio negreiro

uma imensa solidão
me abate
entre as coxas,

deita sobre mim
com o íntimo poder de um
senhor de escravos.

ela é sempre o primeiro homem.


lágrimas vem enfileirar-se
como damas de honra
mucamas esbeltas
percorrendo o salão


e todos os homens serão sempre ela.

há qualquer coisa de fêmea
em todos.
eles

músculos irão se quebrar
como bailarinas de porcelana.

ela é o outro.

erguendo teu sexo
como o concreto de um navio
que corta o mar
é ela, senhor

antagônica criatura do teu ser
exato
a primeira
a me penetrar

das tripas coração

palavra
que me rasga
no movimento
exato
de quem vai
desossar um animal.
tenho a clarividência
dos mortos:
jamais

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

manifesto

a pele
as linhas
as cores
inexatas
o contorno
sistemático
que te traça
no espaço
a carne
que te imprime
o passo
desenho de vias
e acessos
tecitura
de pelos
arquitetura
movediça
inteiro
indivíduo
e ainda assim
extenso planalto
de divisas
teu corpo
é um mapa
que te abre
no tempo,
manuscrito
de invisíveis
aonde debruço
telescópios
à procura

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

cronologia da distância ou a metrópole

nos horários
crônicos
a rua
é um só corpo
infestado
de ausentes
setas expressas
extraviadas
na direção

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

trabalho de parto

é nesse lento parto
por onde nasce uma
mulher estranha.

ela habita meus órgãos
rompe
ar
vaginas
como rompem
as palavras
nos poemas de Gullar

ela é hóspede do meu corpo,
a mulher estranha que te beija

é nessa lenta hora
onde nasce o sexo
estrangeiro ao
meu próprio sexo
é nessa hora
que nasce uma espécie.
um animal que dorme
nos hálitos mais
doces e rarefeitos

amor,
feto
que
flutua
nos
escuros

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Poema de si mesmo

insuportável
estar em mim
a todo instante
tempo depois
de tempo
não me livro
da presença
eterna náusea
que me embrulha
o corpo
este processado
de insetos
células
elas
todas
o corpo
é um barulho
de liquidificador
são as outras
é mesma
erma
plantação de
caquis
é aqui que é
é ser outras
filds forever
à distância
indistinta
massa
bela
inofensiva
aqui é ser outras
massa de náuseas
que não livra
que não livre
ser única
ser viva

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

sobre cidades e pessoas

essa sensação de que terá um ataque cardíaco a qualquer momento, de que as coisas desandaram, desandaram naquele mínimo instante, desandaram. que o corpo ira se perder numa inundação qualquer de dezembro. dezembro, sempre insuportável. e que vai morrer. a morte é aquela luz na janela do apartamento da frente sempre acesa. vai morrer. vai morrer nas coisas iguais, nas coisas coisas cotidianas terrivelmente iguais, lá onde moram os ataques cardíacos. a metrópole o ciberespaço o desespero vertical dos prédios. vai se dividir em pequenas teclas de smartphone. apertando-se contra um emaranhado de coisas não ditas repetidamenterepetidamente até o som de repetir-se virar um espaço igual liso instantâneo subterrâneo. vai morrer. e repetidamente desandar-se andar-se se andar se desandar todas as articulações possíveis da náusea. até todo o peso dos ossos estilhaçar-se em vômito pairando nuvem sobre a cidade.