segunda-feira, 20 de junho de 2011

escrevo com certo cansaço embrulhando copos d’água na luz do abajur esqueço e ponho os pés descalços no chão sujo de poeira talvez uma mulher me olhe do espaço descalça ou talvez sejam só os olhos fixos da mulher do outdoor vigiando as multidões sem destinatários fluxo histérico de tédio não há nada mais histérico que o som do tédio no repetido gozo de ir-se fixamente em si chupando um seco ar de juventude a juventude me cheira a um pó de café aguado no fim da xícara como cheira meus lábios o colar de pérolas desliza fazendo barulho entre os dentes como fazia o barulho da colher quando vovó mexia o café na varanda e dizia ser preciso aparar os galhos da roseira os galhos velhos feito as rugas a dor nas costas e sua mania de esquecer o rosto das pessoas e de repente penso que viver seja mesmo um lapso de memória

1 comentários:

Marília disse...

Um fluxo de imagens incrível.