Era domingo. Maio de algum outono daquele ano. Ah, também era domingo a tarde, esqueci de dizer. As tardes de domingo sempre parecem um pedaço esquecido de tempo, vazias, insossas, pelo menos para mulheres, ou pessoas que não gostam de futebol. O fato é que era domingo e não havia campeonatos a vencer, não naquele espaço do corredor entre a cozinha e a sala, no apartamento em Copacabana. Depois de requentada a metade da lasanha do jantar, lavadas as louças e expulsas as aranhas que se acumulavam na dispensa, ela saiu pelo corredor em direção à sala. De repente, de súbito, de espanto ou qualquer dessas expressões que aparecem em finais de poemas, ela se deparou com uma borboleta morta. Uma borboleta morta, ali, entre a viga da parede com o chão, amarela, grandes antenas desmaiadas.
Ela olhava aquela espécie de corpo ou cadáver, e já não sabia decifrar a imagem ou matéria, já não sabia, brutalidade ou delicadeza. Nunca antes havia visto uma borboleta morta. Tinha visto cachorros atropelados, gatos estrupiados na calçada, pássaros decepados, ou peixes afogados no ar, mas nunca uma borboleta morta. Não havia sangue espalhado pelo chão, sinais de violência, móveis destruídos ou restos mortais. Nenhum sinal de morte.
Procurava borboletas na memória. Lembrou que na infância algumas negras e grandes invadiam seu quarto através da janela da varanda e lhe provocavam profundo medo. Tinha medo também, que mesmo as pequenas e coloridas lhe tocassem a pele enquanto brincava na piscina. Sim, ela possuía um estranho medo de borboletas. Passada a infância, não tinha mais medo das criaturas voadoras, por fim descobriu-as agradáveis, nos jardins ou principalmente entre alguma coisa concreta e poluída na metrópole.
Pois lá estava uma delas, novamente invadindo aquele seu pedaço de intimidade concreta, desafiando seu repertório de coisas exatas. Borboletas no ar, esse era seu único conhecimento sobre a coisa estatelada no seu corredor. E já não a sabia, como não sabia do futebol lá fora, ou da guerra no oriente médio ou do amor. Estava assaltada pelo estado raro das coisas que são e nunca foram na virtualidade imaginaria, o que lhes confere algum certificado de real.
A borboleta morta a acompanhou durante todo o dia. Ela deixou que o bicho ficasse ali, entre a viga do chão com a parede e foi assistir tv, ler Flaubert, escovar os dentes, tirar a mancha do travesseiro, escrever bilhetes eletrônicos. Deixou o bicho acabar-se ali entre a viga do chão com a parede. Não mais a viu, mas a borboleta morta parecia presa entre o cílio e pálpebra dos seus olhos cor de madeira. Entalada. Cada mínimo átomo de cor que lhe aparecia no mover do dia atravessava a borboleta morta. Entalada. No líquido ocular.
E passadas as horas, no relógio e nos estágios do céu, a borboleta morta começou a percorrer o corpo. Dos líquidos oculares, caminhou pelos lábios até a garganta, aos líquidos biliares, às dobras do intestino, aos ossos das articulações dos dedos dos pés. Lá estava ela, amassada entre os lençóis cobertos de ácaros, lá estava ela, tomada de corpo inteiro pela náusea da borboleta morta. Já não se lembrava do bicho, da infância, ou da viga entre o chão com a parede, apenas esquecida, mastigava o peso de tudo que já havia sido lembrado.
Apesar da náusea na iminência dos dentes úmidos, lambia devagar os ares secos do outono e achava bonito algum pedaço de lua que aparecesse na janela. E como se a náusea pudesse dançar por cada órgão do seu corpo, vigiou a madrugada passar sem maiores sustos. Amanhecida, fez tudo de habitual e caminhou com a borboleta morta. Em algum tempo distraído das horas, ouviu alguém dar nome ao bicho. talvez, animal doméstico. melancolia. parecia sonoro.
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2 comentários:
Pra quem gosta de futebol, domingo à noite, após uma derrota do time, é uma hora morta, e na minha memória borboletas são amarelas.
Continue em ritmo de prosa :-)
Não há que ter medo das borboletas.São insectos maravilhosos, de uma beleza colorida.Sugiro que veja:www.ahns-film.de, e clicar em insectos.
Escrevi algo sobre memórias de uma borboleta.
cupts.
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