domingo, 21 de agosto de 2011

absolvição

como saber
se não sou apenas
o que de mim
se dissipa?
e se
já não sou
propriamente
as coisas dissipadas
que faz de mim
inteira posta de carne
junta
como saber
se já não me dissipo
em tudo que passo
cada coisa que me passa
já não serei eu
a própria coisa
que me passa?
absorvida
em súbitos
e sucessivos
goles de ar
diluída
em tudo
que não é
já não sou eu
tudo de mim?
que me faz coesa
em células e órgãos?
como saber
se já também eles
não se passaram por
mim
em ácidas farsas
lógicas
comprovadas
como saber se já não
se depravam
nas janelas de tudo
que me atravessa
e no silêncio
se dissipam
sem que eu perceba
os pedaços passados
à metro
desmanchados
na nuvem que me corta
o corpo
o que de mim vejo
não seriam apenas
suas manchas?
como saber
como saber
nunca confiei
nos espelhos
nas radiografias
ou nas fotografias
como saber
se o que de mim
aparece
não são os falsos
cacos
do que de mim
desaparece
indago
poemas
preces
e de mim
me refaço
num rodamoinho
e só permaneço
no que de mim
não sei