
colocou o vestido de noiva
sozinha no quarto
viu o dia ficar azul
e a louça do café se encher
de formiga ao lado da cama
como nos funerais
colocou o vestido de noiva
e saiu entre os pedestres
desejou que todos fossem
ratos
e em grande cortejo
a multidão dos bichos
carcomesse o vestido
enquanto fosse possível seguir
caminhando
como caminham os peixes
amputados
com sono dos peixes
os olhos abertos
e imóveis
feito doce boiando esmagado
em vidro de conserva
(assim tinha visto na tv a receita do esquecimento)
e de repente
depois do baile
pudesse se ver nua
vestido desaparecido
no estômago dos ratos
despertada do grande sono
seria a amante de todos os ratos
fruto proibido
maior amor do mundo
repousaria como as formigas nos funerais
vida caminhando sobre a morte
1. exegese do amor; s.f. o amor é uma vigília
*Pintura de Edvard Munch

2 comentários:
Ficou muito bom! Um poema forte.
carcomer o vestido em busca da nudez plena, como escavasse o cerne, auscultasse o que havita entre pele e alma.
poema de quem caminha deslabirintando-se.
Abraços!
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