sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Conto da noiva desaparecida ou a Exegese do amor



















colocou o vestido de noiva
sozinha no quarto
viu o dia ficar azul
e a louça do café se encher
de formiga ao lado da cama
como nos funerais

colocou o vestido de noiva
e saiu entre os pedestres
desejou que todos fossem
                                         
                                          ratos

e em grande cortejo
a multidão dos bichos
carcomesse o vestido
enquanto fosse possível seguir
caminhando
como caminham os peixes
amputados
com sono dos peixes
                         
                           os olhos abertos
                           e imóveis

feito doce boiando esmagado
em vidro de conserva

(assim tinha visto na tv a receita do esquecimento)

e de repente
depois do baile
pudesse se ver nua
vestido desaparecido
no estômago dos ratos

despertada do grande sono
seria a amante de todos os ratos
fruto proibido
maior amor do mundo

repousaria como as formigas nos funerais

vida caminhando sobre a morte

1. exegese do amor; s.f. o amor é uma vigília


*Pintura de Edvard Munch

2 comentários:

Sérgio Medeiros disse...

Ficou muito bom! Um poema forte.

Wilson Torres Nanini disse...

carcomer o vestido em busca da nudez plena, como escavasse o cerne, auscultasse o que havita entre pele e alma.

poema de quem caminha deslabirintando-se.

Abraços!