o amor é
dessas coisas
que me invade
como gente
à terra ampla e vazia
e me toma
inteira de uma
coragem muito escura
a coragem, querido
é uma liberdade esquisita
imensa asa
desprovida de rota
água desembestada
sem cais
pedaço de terra
que não pode ser
tomado de herança
de repente,
como um filho que deixa a casa
a coragem, nascida do amor
já não é possível
como inviável é
a maternidade sem prole
porque o amor só é possível
quando tomado de herança
um piano inútil e intransferível
a ocupar a sala
e desterrados de casa
só resta essa liberdade,
esquisita
e só

5 comentários:
no final, o problema de tudo é o pianista...
bjo.
Acho fantástico o seu jeito de talento pra transformar tudo em poesia.
Querida Beatriz,
gosto de ler seus poemas e gostei desse poema também :-)
Um comentário mais pontual deste humilde leitor: na segunda estrofe, a coragem, que vem do amor, é como um "pedaço de terra que não pode ser tomado de herança", e na quarta estrofe "o amor só é possível quando tomado de herança".
A minha impressão foi de que uma imagem estava se opondo à outra.
Fico aguardando por mais :-)
Sérgio,
sinta-se sempre a vontade para as críticas, porque sempre as considero produtivas.
Trata-se realmente de um paradoxo entre a liberdade, que nasce da coragem, que por sua vez nasce do amor, que se vê duplamente, no embate entre a liberdade e o sentimento de herança, de passado e pertencimento, que é fundamental ao amor.
Mas concordo que as imagens ficaram confusas mesmo, talvez porque a ideia em si seja bastante confusa e não tenha encontrado o canal de expressão mais claro.
Obrigada pelo olhar atento. É sempre produtivo.
beijo
Beatriz
Muito obrigado pela explicação :-)
Sinta-se à vontade também para opinar sobre as minhas poesias ;-)
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