quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Genealogia


o amor é
dessas coisas
que me invade
como gente
à terra ampla e vazia
e me toma
inteira de uma
coragem muito escura

a coragem, querido
é uma liberdade esquisita
imensa asa
desprovida de rota
água desembestada
sem cais
pedaço de terra
que não pode ser
tomado de herança

de repente,
como um filho que deixa a casa
a coragem, nascida do amor
já não é possível
como inviável é
a maternidade sem prole

porque o amor só é possível
quando tomado de herança
um piano inútil e intransferível
a ocupar a sala

e desterrados de casa
só resta essa liberdade,
esquisita
e só



5 comentários:

Fouad Talal disse...

no final, o problema de tudo é o pianista...

bjo.

Marília disse...

Acho fantástico o seu jeito de talento pra transformar tudo em poesia.

Sérgio Medeiros disse...

Querida Beatriz,

gosto de ler seus poemas e gostei desse poema também :-)

Um comentário mais pontual deste humilde leitor: na segunda estrofe, a coragem, que vem do amor, é como um "pedaço de terra que não pode ser tomado de herança", e na quarta estrofe "o amor só é possível quando tomado de herança".

A minha impressão foi de que uma imagem estava se opondo à outra.

Fico aguardando por mais :-)

Beatriz disse...

Sérgio,
sinta-se sempre a vontade para as críticas, porque sempre as considero produtivas.

Trata-se realmente de um paradoxo entre a liberdade, que nasce da coragem, que por sua vez nasce do amor, que se vê duplamente, no embate entre a liberdade e o sentimento de herança, de passado e pertencimento, que é fundamental ao amor.

Mas concordo que as imagens ficaram confusas mesmo, talvez porque a ideia em si seja bastante confusa e não tenha encontrado o canal de expressão mais claro.

Obrigada pelo olhar atento. É sempre produtivo.

beijo

Beatriz

Sérgio Medeiros disse...

Muito obrigado pela explicação :-)

Sinta-se à vontade também para opinar sobre as minhas poesias ;-)